O contexto
Cofundação da Palmtech Biomantas e Serviços Ambientais, startup de recuperação de áreas degradadas com biomantas biodegradáveis. Aprendi a criar e a gerenciar uma startup em um contexto adverso, e aprovamos dois projetos em contextos altamente regulados.
Os projetos
Programa Centelha-MA (2021)
A Palmtech foi selecionada entre os empreendimentos inovadores apoiados pelo Programa Nacional de Apoio à Geração de Empreendimentos Inovadores (FAPEMA, FINEP e MCTIC, Edital 22/2019), no eixo Biotecnologia e Geoengenharia. A aprovação validou a tese de negócio da empresa, biomantas biodegradáveis para recuperação de solos degradados, em um programa nacional altamente competitivo. Trouxe também uma trilha de mentoria em planejamento de negócio, modelo de produto e posicionamento, que estruturou a startup antes da captação de recursos maiores.
Geotêxteis biodegradáveis na restauração de ecossistemas da Amazônia Legal maranhense (FUNDECI e Banco do Nordeste, 2021 a 2023)
Projeto de subvenção econômica para inovação em empresas, em parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Aplicou a tecnologia validada no Centelha à recuperação de áreas degradadas por erosão no Parque Estadual do Bacanga, em São Luís, manancial que abastece cerca de 200 mil pessoas.
Atuei como pesquisadora na equipe técnica: conduzi a pesquisa de solos degradados, a validação técnica das biomantas frente a métodos convencionais de recuperação e a estruturação técnico-operacional do projeto, incluindo oficinas comunitárias de capacitação e o encaminhamento do pedido de patente ao INPI.
Projeto Aruwê (proposta de pesquisa, FAPEMA e FAPESP)
Colaborei na elaboração de uma proposta de pesquisa multi-institucional (UEMA, UNESP, UNICAMP, UFSCar, UFMA, UFRJ, IBAMA, INPA e Rede Meli) que integra o conhecimento tradicional do povo Tenetehar/Guajajara à ciência para restaurar áreas degradadas e desenvolver bioeconomia (meliponicultura e biomantas) na Terra Indígena Araribóia, um dos territórios indígenas mais ricos em biodiversidade do Maranhão. Contribuí na formulação técnica da proposta, nos planos de recuperação de áreas degradadas e na caracterização de solos.
O que aprendi
Pesquisa aplicada precisa virar evidência auditável. Cada meta do projeto (produção de biomantas, oficinas comunitárias, área recuperada) exigia comprovação formal: lista de presença assinada, registro fotográfico, georreferenciamento e inventário físico. Isso me obrigou a desenhar a pesquisa de campo já pensando em como um agente financiador externo a verificaria, uma disciplina que a pesquisa puramente acadêmica nem sempre exige.
Navegar a burocracia do financiamento público sem perder o rigor técnico. Quando o cronograma previa uma capacitação genérica em gestão de startups em São Paulo, defendi formalmente junto à FAPEMA a realocação desse recurso para a participação na VIII Conferência Brasileira sobre Estabilidade de Encostas, em Pernambuco, porque aquele era o conhecimento tecnicamente relevante para o produto. Parte do trabalho em um projeto de inovação é argumentar, por escrito e dentro das regras do edital, por onde o recurso deve ir.
Validar tecnicamente uma solução de baixo custo. A pesquisa de solos degradados e a comparação entre biomantas de fibra de coco e de buriti mostraram que, bem documentada, a validação técnica vira também argumento de negócio: um custo de cerca de um terço em relação às obras convencionais de recuperação não nasce de intuição, nasce de medição.
Pesquisa de campo em restauração é interdisciplinar. Coordenar a pesquisa em uma equipe multi-institucional (UEMA e Palmtech), com geógrafos, engenheiro químico e cientistas sociais, mostrou que dado de solo sozinho não recupera área nenhuma sem entender a comunidade que vai operar e sustentar a recuperação no tempo.
Conhecimento ancestral como fonte de dado científico. Esse aprendizado amadureceu ao ajudar a escrever a proposta do Aruwê, que exigiu ir além da pesquisa técnica aplicada e tratar o conhecimento ancestral do povo Tenetehar como fonte legítima de dado científico, e não como pano de fundo cultural. Mudou de forma real a maneira como desenho pesquisa em restauração ambiental desde então.